as coisas não estavam bem entre a gente, o "vaso" estava quase trincando, mas ainda assim, fui tentando, tentando e achei que começavam a melhorar, até que veio a oportunidade de escolher entre mim e alguma coisa e ela escolheu a outra coisa, não percebeu que era a oportunidade de consertar o "vaso" de uma vez, viu que era mais feliz sem mim.
o dia não tinha sido nada fácil. nem um pouco fácil. pela primeira vez na vida, tudo que eu queria era ser "importante", ser "prioridade" para alguém. pela primeira vez na vida era isso que eu queria ser, nessa noite eu precisava ficar maior, precisava respirar direito, precisava ver com meus próprios olhos, alguém que me amasse mesmo.
nao consegui!
eu não queria dizer que precisava disso, é difícil dizer que precisa, muito difícil, queria que ela percebesse, que sentisse, que entendesse que quando eu disse "nao vem? que pena!" estava dizendo o que precisava, que era urgente, que era forte, o que eu sentia naquela hora. ela nao percebeu, preferiu outra coisa!
engraçado que um dia desses nós juramos que íamos ser felizes. na tarde desse dia eu a vi na rua, andando, bonita, olhando pra frente mas pensando pra trás. eu percebi, juro que percebi. nao parei o carro, nao chamei, nao fiz nada além de olhar. de algum modo, seu olhar perdido olhando para nada me comoveu, então à noite, quando nos encontramos, propus: vamos só ser felizes? ela aceitou.
2.12.10
você dormiu
você ouviu o que eu dizia só até a página que queria
depois sumiu
exatamente como pretendia
deixou meus braços abertos em arcos
fugiu do abraço
sem deixar rastro
não me emprestou nem um único vestígio
você dormiu
nem percebeu que ontem
aliás, anteontem, morri mais um pouco
ressuscitei ao meio dia
e de novo
você nao existia
só teu isqueiro dormia
na madeira escura da mesa vazia
você ouviu o que eu dizia só até a página que queria
depois sumiu
exatamente como pretendia
deixou meus braços abertos em arcos
fugiu do abraço
sem deixar rastro
não me emprestou nem um único vestígio
você dormiu
nem percebeu que ontem
aliás, anteontem, morri mais um pouco
ressuscitei ao meio dia
e de novo
você nao existia
só teu isqueiro dormia
na madeira escura da mesa vazia
8.11.10
18.10.10
velas içadas
rajadas de vento
rasgando palavras
água lambendo a proa
bons ventos, garoa.
âncora recolhida.
sensação de partida.
sabores brotando na boca
todos vindos de antes
do que já se tinha esquecido.
o mar é imenso.
negro feito a pior notícia.
nave que deixa o cais
ao mar: navegar é o início.
velas içadas
águas e desconhecido
sol no horizonte
luz na maré amanhecida sempre que for preciso.
cabeça abobada
abóbadas roubadas
das noites negras do hospício
tudo tão dúbio
tudo tão obtuso
noivo sozinho no altar
noroeste que não existe.
ah! as tuas planícies, as tuas aves, tuas montanhas de meninices
velas içadas
rajadas de vento
água lambendo a proa
e lá na frente, inesperada,
toda tua superfície
marujo no mastro gritando:
amar
à
(primeira)
vista.
14.10.10
as tuas planícies
calmas,
eu bem lhe disse,
não tem mais fim
surgem assim de repente
vento cortante sol quente
varrendo premente tudo o que resta de mim.
cadê?
nada mais se avista
nem terra nem mar muito menos nova notícia.
solidão de circunstância
distância que ninguém pretendia.
dentro de mim
nem noite
nem dia.
9.10.10
meu coração estraçalhado
de pedaços espalhados
por cinco avenidas,
não suportou.
na hora daquela morte
não resistiu às palavras
todas fingindo adagas
que tua voz dizia.
leve delicadeza, que falta faz gentileza na derradeira unção!
sem contar com a razão,
uma a uma,
minhas certezas petrificaram,
empedraram,
se amontoaram no que sobrou do meu peito
matando de mais de um jeito
meu tão eterno amor.
acordei no outro mundo,
afogado em gemidos
faltando sentidos
feito alma penada que pede a glória de uma vela acesa.
morri outra vez
quando tive certeza que não me querias
que o que me disseste
era exatamente o que dirias
era cidade que não existia
era gelo que derretia.
meu coração estraçalhado
agora empilhado na prateleira da minha sina,
pedaço sobre pedaço,
é lembrança amarelecida,
jazigo abandonado,
no alto nada ensolarado
da tua bruta colina.
de luto,
feito ferro fundido em bruto,
meu coração descompassado se guarda em lápide
de conhecida pedra escura
e se põe a morrer, minuto a minuto.
(nada último, nenhum ar de oxigênio assim tão absoluto)
então sangra!
vaza vesúvios que trazia amortecidos
bate tambores desafinados de couro carcomido
quebra vidraças
rasga sacos e mais sacos de celofane colorido.
e assim morre outro pouco,
sem ver que tudo é tal qual verdadeiro suicídio.
sobra somente o oco dos teus olhos previstos
feito bandeira lá no mais alto do mastro inimigo.
já era escuro quando dei conta do acontecido
chegaste então sorridente, vestindo preto
feito meu coração de luto,
e ao vê-lo ali enlapidado,
quieto como fim de domingo,
deixou-o de lado,
de novo assim sem ruído
em pleno estado gasoso
desgostoso
nem sólido,
nem oleoso,
só levemente amortecido,
a celebrar o luto.
na estreita fresta da porta, um vento seco desenha precipícios.
no fim, não era.
era somente o início do tenebroso exercício
de
te
perder
de
te
perder
ad
infinitum.
infinitum.
recitando Voltaire em silêncio
no sério intento
de voltar outro dia
me pego doído e “penso”
a te olhar de lado
exatamente como pretendia.
logo ali adiante, quase na minha frente,
insolente,
o sol se sente suficiente
para lhe tingir meia cara
com luz intensa e desinibida
exatamente como eu faria.
e cara, rara, mas muito cara,
tua presença premente
imensa mas convergente
assim de perto, franzina
põe-se a curar agruras
inaugurar alturas
com que eu jamais sonharia.
e num repente
exatamente quando o tempo tenta seguir em frente
castanho olho intermitente
doce, grande, transparente
praticamente concede-me dança até então interdita.
tudo pacato, tudo tácito, tudo assim tão decente
como se tudo já tivesse acontecido.
prá cá
prá lá
volta prá cá de novo
vai prá lá novamente.
como relendo primoroso livro
favorito entre os favoritos
assim te prendo comigo,
fazendo arco com os braços
aquietando o apreço
inquietando o juízo.
com a alma suspensa
na leve brisa da tarde que ia
lembrando que é renda
a volta do lenço
sabendo que é ouro a palavra que eu tanto queria.
8.10.10
PEDRA
ONDE QUERIA FLOR
NADA
ONDE QUERIA ÁGUA
SILÊNCIO
ONDE QUERIA GRITO
SAUDADE
ONDE QUERIA AMÉM
VERDADE
ONDE QUERIA VINHO
VAZIO
ONDE QUERIA MUITO
LEMBRANÇA
ONDE QUERIA AGORA
VONTADE
ONDE QUERIA MAIS
EU QUE QUERIA TANTO TE VEJO AGORA NAVEGANDO
OUTRO OCEANO NEM UM POUCO PACÍFICO E EU LÁ LONGE TE OLHANDO DA BEIRA DE OUTRO PRECIPÍCIO.
ONDE QUERIA FLOR
NADA
ONDE QUERIA ÁGUA
SILÊNCIO
ONDE QUERIA GRITO
SAUDADE
ONDE QUERIA AMÉM
VERDADE
ONDE QUERIA VINHO
VAZIO
ONDE QUERIA MUITO
LEMBRANÇA
ONDE QUERIA AGORA
VONTADE
ONDE QUERIA MAIS
EU QUE QUERIA TANTO TE VEJO AGORA NAVEGANDO
OUTRO OCEANO NEM UM POUCO PACÍFICO E EU LÁ LONGE TE OLHANDO DA BEIRA DE OUTRO PRECIPÍCIO.
1.10.10
essa noite guardei teu cheiro
na dobra mais paroxítona que encontrei no que sobrou de mim.
não era vazia
não era fria
a visão do teu corpo marcado no cetim do lençol em que me escondo.
era um porão
era um vão bem aquecido, avião voando pássaro bandido
era um zunido cortando o meu e o teu ouvido
estampido de bala que rasga do coração ao umbigo.
ah
o céu!
era mesmo o céu
que trazias escondido
no gesto não pretendido
nas curvas do corpo
no peito arfante de espanhola de fotografia
que me dizia como são todas as maravilhas
e os nomes de todas as ilhas do arquipélago em que nada mais existia.
essa noite guardei o teu cheiro
e nada mais trago comigo
deixei a razão
desfrutando do acontecido
os documentos na gaveta
e o mar do outro lado da rua batendo nas pedras um toc toc impossível
indo e voltando
como se fosse sorriso
como se fosse o amor que não avisa
como se fosse a brisa batendo no rosto
de olhos puxados e nada nada arrependidos
como se fosse o sorriso
do melhor amigo
avisando que volta
que volta prá ficar comigo.
18 canções depois
os olhos dos dois
não encontravam explicação
para quase nada do que viam.
e as palavras então?
soltas como bailarinas que indo e voltando
passeavam na estranha sinfonia feito sol lá si fá sol
se é que isso combina.
mas nada disso importava
não era hora pra isso
era um feitiço que vigorava
e a ele ninguém reagia.
18 canções depois.
30.9.10
quero uma roda gigante
sorrisos imensos caninos (di) amante
e de agora em diante
eu quero traços retinhos juntando o que não re-conheço
quero seu rosto no escuro
eu quero mãos enlaçadas
eu quero quase nada.
quero uma roda gigante
eu quero um instante do pensamento
um copo de uísque um momento
eu quero gol eu quero aumento
e de agora em diante
quero caminhos me levando a você.29.9.10
ar rarefeito
seu peito arfante mostrando endereço
dizendo que amor é começo
que te amar é assim desse jeito
as tuas colinas
as tuas montanhas, as tuas esquinas
tatuagem e adrenalina
vales,entranhas, horas e a menina esparramada
ressonando como quem nem percebe a sina.
cardumes de espécies anteriormente extintas
inventa mares e províncias enfeitadas
bandeiras coloridas penduradas
tudo dizendo que sim!
teu vulto volta vestido de preto e os pés tão pequenos
no alto
reluzindo a cor do esmalte das mãos.
eram só duas as luzes quando te olhei de longe sem saber se era o gin
ainda assim vi que era bem desse jeito
que era estreito esse gibraltar que eu tão pouco conheço
mas sei que é tudo prá mim.
de longe pareciam águas
todas voltadas prá dentro redemoinhos conventos de noviças encantadas
onde não se considera nada
que não seja excelente comportamento.
eu cheio de gin
e o teu vulto voltando para falar coisas que ninguém mais ouvia
falava que um dia viria e quem sabe depois ficaria
ouvindo billie jean cinquenta e três vezes
e esqueceria a hora, ficaria, permaneceria e esqueceria o gin.
teu vulto arrebenta as horas quebra vidraças rasga cartas mofadas reinventa auroras
deixa vizinhas zangadas, alvoroça ninhadas de passarinhos desesperados
que se perdem no vento e mais nada.
teu vulto volta vestido de preto e se estatela dentro de mim.
Assinar:
Comentários (Atom)