18.10.10

             
velas içadas
rajadas de vento
rasgando palavras
água lambendo a proa
bons ventos, garoa.

âncora recolhida.
sensação de partida.
sabores brotando na boca
todos vindos de antes
do que já se tinha esquecido.

o mar é imenso.
negro feito a pior notícia.

nave que deixa o cais
ao mar:  navegar é o início.

velas içadas
águas e desconhecido
sol no horizonte
luz na maré amanhecida sempre que for preciso.

cabeça abobada
abóbadas roubadas
das noites negras do hospício
tudo tão dúbio
tudo tão obtuso

noivo sozinho no altar
noroeste que não existe.

ah!  as tuas planícies, as tuas aves, tuas montanhas de meninices

velas içadas
rajadas de vento
água lambendo a proa
e lá na frente, inesperada,
toda tua superfície

marujo no mastro gritando:

amar
   à
     (primeira)
vista.

14.10.10

as tuas planícies
calmas,
eu bem lhe disse,
não tem mais fim
surgem assim de repente
vento cortante sol quente
varrendo premente tudo o que resta de mim.

cadê?

nada mais se avista
nem terra nem mar muito menos nova notícia.

solidão de circunstância
distância que ninguém pretendia.

dentro de mim
nem noite
nem dia.

9.10.10

meu coração estraçalhado
de pedaços espalhados
por cinco avenidas,
não suportou.

na hora daquela morte
não resistiu às palavras
todas fingindo adagas
que tua voz dizia.

leve delicadeza, que falta faz gentileza na derradeira unção!

sem contar com a razão,
uma a uma,
minhas certezas petrificaram,
empedraram,
se amontoaram no que sobrou do meu peito
matando de mais de um jeito
meu tão eterno amor.

acordei no outro mundo,
afogado em gemidos
faltando sentidos
feito alma penada que pede a glória de uma vela acesa.

morri outra vez
quando tive certeza que não me querias
que o que me disseste
era exatamente o que dirias
era cidade que não existia
era gelo que derretia.

meu coração estraçalhado
agora empilhado na prateleira da minha sina,
pedaço sobre pedaço,
é lembrança amarelecida,
jazigo abandonado,
no alto nada ensolarado
da tua bruta colina.
de luto,
feito ferro fundido em bruto,
meu coração descompassado se guarda em lápide
de conhecida pedra escura
e se põe a morrer, minuto a minuto.

(nada último, nenhum ar de oxigênio assim tão absoluto)

então sangra!

vaza vesúvios que trazia amortecidos
bate tambores desafinados de couro carcomido
quebra vidraças
rasga sacos e mais sacos de celofane colorido.

e assim morre outro pouco,
sem ver que tudo é tal qual verdadeiro suicídio.

sobra somente o oco dos teus olhos previstos
feito bandeira lá no mais alto do mastro inimigo.

já era escuro quando dei conta do acontecido
chegaste então sorridente, vestindo preto
feito meu coração de luto,
e ao vê-lo ali enlapidado,
quieto como fim de domingo,
deixou-o de lado,
de novo assim sem ruído
em pleno estado gasoso

desgostoso

nem sólido,
nem oleoso,
só levemente amortecido,
a celebrar o luto.

na estreita fresta da porta, um vento seco desenha precipícios.

no fim, não era.
era somente o início do tenebroso exercício
de
te
perder
ad
infinitum.
recitando Voltaire em silêncio
no sério intento
de voltar outro dia
me pego doído e “penso”
a te olhar de lado
exatamente como pretendia.

logo ali adiante, quase na minha frente,
insolente,
o sol se sente suficiente
para lhe tingir meia cara
com luz intensa e desinibida
exatamente como eu faria.

e cara, rara, mas muito cara,
tua presença premente
imensa mas convergente
assim de perto, franzina
põe-se a curar agruras
inaugurar alturas
com que eu jamais sonharia.

e num repente
exatamente quando o tempo tenta seguir em frente
castanho olho intermitente
doce, grande, transparente
praticamente concede-me dança até então interdita.

tudo pacato, tudo tácito, tudo assim tão decente
como se tudo já tivesse acontecido.

prá cá
prá lá
volta prá cá de novo
vai prá lá novamente.

como relendo primoroso livro
favorito entre os favoritos
assim te prendo comigo,
fazendo arco com os braços
aquietando o apreço
inquietando o juízo.

com a alma suspensa
na leve brisa da tarde que ia
lembrando que é renda
a volta do lenço
sabendo que é ouro a palavra que eu tanto queria.

8.10.10

PEDRA
ONDE QUERIA FLOR


NADA
ONDE QUERIA ÁGUA


SILÊNCIO
ONDE QUERIA GRITO

SAUDADE
ONDE QUERIA AMÉM

VERDADE
ONDE QUERIA VINHO

VAZIO
ONDE QUERIA MUITO

LEMBRANÇA
ONDE QUERIA AGORA

VONTADE
ONDE QUERIA MAIS

EU QUE QUERIA TANTO TE VEJO AGORA NAVEGANDO
OUTRO OCEANO NEM UM POUCO PACÍFICO E EU LÁ LONGE TE OLHANDO DA BEIRA DE OUTRO PRECIPÍCIO.

1.10.10

essa noite guardei teu cheiro
na dobra mais paroxítona que encontrei no que sobrou de mim.

não era vazia
não era fria
a visão do teu corpo marcado no cetim do lençol em que me escondo.

era um porão
era um vão bem aquecido, avião voando pássaro bandido
era um zunido cortando o meu e o teu ouvido
estampido de bala que rasga do coração ao umbigo.

ah
o céu!
era mesmo o céu
que trazias escondido
no gesto não pretendido
nas curvas do corpo
no peito arfante de espanhola de fotografia
que me dizia como são todas as maravilhas
e os nomes de todas as ilhas do arquipélago em que nada mais existia.

essa noite guardei o teu cheiro
e nada mais trago comigo
deixei a razão
desfrutando do acontecido
os documentos na gaveta
e o mar do outro lado da rua batendo nas pedras um toc toc impossível
indo e voltando
como se fosse sorriso
como se fosse o amor  que não avisa
como se fosse a brisa batendo no rosto
de olhos puxados e nada nada arrependidos
como se fosse o sorriso
do melhor amigo
avisando que volta
que volta prá ficar comigo.
18 canções depois
os olhos dos dois
não encontravam explicação
para quase nada do que viam.

e as palavras então?

soltas como bailarinas que indo e voltando
passeavam na estranha sinfonia feito sol lá si fá sol
se é que isso combina.

mas nada disso importava
não era hora pra isso
era um feitiço que vigorava
e a ele ninguém reagia.

18 canções depois.